Por Fausto Leite [*]
Sergipe entrou de vez no modo eleição antecipada, aquele em que ninguém admite publicamente, mas todo mundo já está com o time em campo, e a jogada que mudou o ritmo do jogo veio com Edvan Amorim, que fez uma leitura fria e ousada ao lançar André Davi ao Senado, uma aposta que parecia improvável para muitos, mas que rapidamente ganhou tração, ocupando espaço e mexendo com a estrutura que até então parecia consolidada em torno de Rodrigo Valadares, que vinha sendo tratado como herdeiro natural do bolsonarismo no Estado.
O efeito foi imediato, e não foi pequeno, porque André Davi não entrou no jogo para compor, entrou para disputar, com discurso direto, presença forte nas redes e uma comunicação que conversa com as bases, especialmente com as classes B, C e D, que respondem com engajamento alto, curtida, comentário e compartilhamento, criando uma musculatura política que surpreendeu até quem acompanha o cenário de perto, e é nesse ponto que a leitura de Edvan ganha peso, porque não foi apenas lançar um nome, foi entender o timing, o espaço e o público.
Do outro lado, Rodrigo Valadares não ficou parado, como não poderia ficar, porque política é movimento, e quando surge uma nova força no mesmo campo ideológico, o espaço naturalmente se ajusta, e começam então as conversas de bastidor, as aproximações, os recados indiretos, e a hipótese que circula é de um entendimento tácito, um acordo branco, em que ambos evitariam confronto direto, preservando suas bases e permitindo uma divisão estratégica de votos, algo do tipo, um voto para cada, sem ataque frontal, mantendo o eleitorado unido.
Mas política nunca é tão simples quanto parece, e qualquer construção desse nível passa por outras peças do tabuleiro, e é aí que entram nomes como Emília Corrêa e Valmir de Francisquinho, porque não existe conversa de Senado isolada de projeto de governo, e qualquer alinhamento exigiria contrapartidas, ajustes e, possivelmente, movimentos maiores, como reposicionamento de candidaturas, inclusive envolvendo Ricardo Marques, o que transforma uma simples articulação em um rearranjo completo de forças.
Há também outra versão que circula com força, a de que Rodrigo teria buscado uma solução mais direta, sugerindo que André Davi recuasse para uma candidatura a deputado federal, abrindo caminho para uma composição mais linear ao Senado, o problema é que André Davi não tem dado sinais de que pretende recuar, pelo contrário, tem reforçado publicamente sua posição, deixando claro em suas falas e postagens que “não é cordeiro, é lobo”, frase que viralizou e encontrou eco em uma parcela significativa do eleitorado.
Enquanto isso, Valmir de Francisquinho segue com uma estratégia que chama atenção pela calma, pela constância e pela ausência de sobressaltos, conduzindo sua pré-campanha com leveza e presença, sem entrar em conflito direto, o que, em muitos momentos, funciona como ativo político, porque em meio ao ruído, quem fala menos e aparece mais tende a consolidar imagem de equilíbrio, algo valorizado em cenários de tensão.
O fato é que a entrada de André Davi mudou o eixo da disputa, bagunçou o roteiro que muitos já consideravam escrito e obrigou todo mundo a recalcular rota, e isso, do ponto de vista político, é sinal de vitalidade do processo, porque eleição previsível costuma ser eleição fraca, e Sergipe, neste momento, está longe de ser previsível, está vivo, pulsando e cheio de possibilidades.
E o detalhe mais importante, que muita gente finge não ver, é que ainda há tempo, as convenções vão até o dia cinco de agosto, e até lá muita coisa pode acontecer, alianças podem nascer, candidaturas podem mudar de rumo e acordos podem ser feitos ou desfeitos, porque política não é fotografia, é filme, e esse filme em Sergipe está só no começo, com roteiro aberto, personagens fortes e um final que ninguém, absolutamente ninguém, tem coragem de cravar.





