Opinião – Como se perde uma eleição em câmera lenta

O Intercept está fazendo mais do jornalismo: é um interrogatório com pauta marcada

Por Marcolino Joe [*]

A lógica é simples e devastadora: solta uma peça, espera a reação, lê o erro da reação e usa esse erro pra calibrar a próxima peça. Ontem foram os R$ 134 milhões negociados com um banqueiro que meses depois seria preso tentando fugir do país. Hoje é o plano de levar Jair Bolsonaro pra casa desse mesmo banqueiro, um dia depois de ele virar réu por tentativa de golpe. Amanhã, a gente não sabe. E esse é exatamente o ponto.

Flávio Bolsonaro caiu na armadilha mais antiga da gestão de crise: respondeu como inocente tentando provar inocência. Confirmou o patrocínio, negou a irregularidade, e com isso deu vida ao tema sem fechar nenhuma pergunta. No mundo das narrativas, essa é a pior posição possível. Você entrega o microfone e fica sem palco.
Tem saída? Tem, mas nenhuma é confortável.

Você pode queimar o arquivo antes que ele queime você, saindo na frente com a versão mais favorável possível. O risco é subestimar o que eles ainda têm guardado, porque a comparação entre o que você disse e o que eles publicam depois vira um segundo escândalo pior que o primeiro. Você pode tentar o silêncio ativo, ignorar o Intercept especificamente e deslocar a energia pra construir outro centro de gravidade na campanha. O risco é que silêncio, no Brasil político, raramente é lido como dignidade. Quase sempre é lido como culpa. Ou você pode virar o tabuleiro, transformar o veículo num ator da disputa e não numa fonte de imprensa. Foi o que o bolsonarismo fez com a grande mídia em 2018 e funcionou com a base. O problema é que o eleitorado que o Flávio precisa conquistar pra ser presidente não mora só na base.

Mas aqui está o que nenhuma das três estratégias resolve: quando você tem áudio confirmado, comprovante bancário e um banqueiro preso que ainda pode falar, você não tem um problema de narrativa que vazou pra Justiça. Você tem um problema jurídico que vazou pra narrativa. E esses dois problemas têm soluções que se contradizem. O que te protege no tribunal quase nunca é o que te salva nas redes.

O que fica, no fundo, é uma pergunta mais incômoda do que qualquer revelação do Intercept: que nível de arrogância leva alguém a mandar áudio cobrando milhões de um cara que meses depois vai ser preso no aeroporto com a mala pronta? Não é falta de estratégia. É a síndrome de quem viveu tanto tempo achando que nunca viria à tona que esqueceu que os arquivos ficam.

A eleição ainda não começou oficialmente. E já tem gente perdendo em câmera lenta.

[*] é cineasta e estrategista

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