
Por Professor Chico [*]
A minha preocupação com os destinos da humanidade, como diria o saudoso Darcy Ribeiro, me trouxe às ciências humanas, sobretudo a sociologia. É claro que a sociologia difere do serviço social e que também existem sociologias conservadoras e essas podem existir sem duvida alguma, mas as minhas práticas pedagógicas, o meu compromisso com a educação e o meu gosto pelas ciências sociais se inclina no sentido de empreender práticas que melhorem a condição humana.
É por isso que ao assistir «Democracia em Vertigem», eu temo por coisas parecidas com as apontadas por Petra Costa, mas eu busco compreender os contextos e os bons e velhos sentidos atribuídos às práticas dos cristãos que aparecem no filme. Pelo mesmo motivo eu assisto às sessões do Congresso Nacional e da Assembleia de Sergipe ouvindo parlamentares com os quais concordo ou não.
Dito isso eu retomo uma provocação pessoal básica para todos e todas aqueles que pretendem/acreditam numa educação cidadã no Brasil: Fazer uma educação suprapartidária, ou seja, independente de partidos, mas não contra ou favor deles é diferente de ser neutro e não se posicionar diante do que ataca ou ameaça romper com a nossa democracia.
Nesse sentido, movimentos como o escola sem partido são uma verdadeira agressão à prática pedagógica, à dignidade e à inteligência da sociedade. Por exemplo, eu enquanto professor progressista umbandista com filiação partidária X, faço um evento sobre a relação entre as mídias sociais digitais e a democracia e chamo três políticos. Um é um senador de centro, outra é uma deputada federal também de centro e outro é um executivo de direita. Para esse evento eu pedi perguntas sobre o exercício do mandato de cada um desses políticos e trabalhei violência digital, violência politica de gênero e comunicação não violenta.
Para quem sabe o que é uma sala de aula. O fato de eu não ter esgotado todos os matizes ideológicos sobre violência digital e política, bem como comunicação não violenta não faz de mim um fanfarrão na sala de aula, bem como um prosélito, mas apenas um ser humano com limitações de tempo e muitas vezes de recursos materiais para as aulas também.
Frequentemente sou perguntado em sala de aula sobre o que achou dos temas os quais abordo em sala de aula e de um ou outro acontecimento politico e explico do que se trata para em seguida opinar positiva ou negativamente e com ou sem ressalvas.
Como filho de politico e sindicalistas eu cresci vendo e ouvindo gente diferente em vários aspectos no meu dia-a-dia, mas infelizmente vejo que o estado de Sergipe, bem como o Brasil vivem um momento muito difícil do ponto de vista da qualidade da nossa representação política. Mais uma razão para eu ensinar leis, conceitos, instituições e métodos e encorajar a juventude a pelo menos conhecer a pratica política e as coisas do Estado.
É por isso que não faz sentido censurar uma deputada que faz história no nosso estado como a primeira mulher trans na Alese e atua em várias pautas e constantemente se dispõe a estar nas nossas escolas falando de direitos humanos e educação tampouco somos obrigados a colocar Lula toda vez em que falamos em Bolsonaro e falar em Bolsonaro toda vez que colocamos algo sobre Lula, como no episódio recente da redação do vestibular EAD da UFS, do ultimo dia 10 de agosto.
Se as figuras públicas com mandato que se posicionaram contrariamente a tais fatos forem às escolas com certeza não vão falar de uma forma diferente, bem como tendem a não ler autores nem portais ou canais que falem diferente de suas crenças e não vão buscar o escola sem partido para regular isso.
O recuo da UFS, o silêncio das instituições de governo e ensino e a confusão entre polarização eleitoral e polarização política, bem como as tais milícias digitais não podem calar o que sempre funcionou, notavelmente nas ciências humanas, que é a valorização das subjetividades na construção do conhecimento. É por isso que somos plurais e é por isso que Olavo de Carvalho e Mário Sergio Cortella tem visões diferentes sobre a escola e a religião, por exemplo.
O seu tio bolsonarista, que não gosta de ouvir uma analogia entre o ex-presidente e Hitler precisa saber o que é o nazismo; assim como o seu colega de grêmio do PSB precisa saber o que é o socialismo. Ambos pelo menos tem o direito disso e o direito a recorrer as fontes que conseguir acessar à respeito disso e isso não pode deslegitimar a produção e a busca de conhecimento nos dois casos.
Não tem jeito, democracia dá trabalho e precisamos aprender a ouvir, voltar a ler e ir a fundo, no mundo e nas escolas.
* Imagem produzida por IA
[*] Francisco Emanuel Silva Meneses Alves é cientista social, articulista, comunicador político @politica_facil_ (no Instagram), Membro da Rede Estadual de Educação e Idealizador do projeto “Politica Fácil” enquanto professor temporário de sociologia na rede estadual de Sergipe





