Por Márcio Rocha [*]
Se existe uma coisa que não se pode tolerar, é a utilização de políticas públicas como instrumento de conveniência política em vez de compromisso permanente com a sociedade.
A trajetória da chamada “taxa das blusinhas” revela um problema que vai muito além da cobrança de um imposto sobre compras internacionais. Ela expõe uma prática recorrente da política brasileira: a transformação de temas complexos em narrativas simplificadas, vendidas ao cidadão como solução definitiva, quando na realidade muitas vezes representam apenas movimentos temporários dentro de um cenário muito maior.
Primeiro, o brasileiro ouviu que era necessário tributar compras internacionais de pequeno valor para proteger a indústria nacional, garantir isonomia concorrencial e preservar empregos. O argumento apresentado era de que empresas brasileiras enfrentavam uma carga tributária pesada enquanto gigantes estrangeiras vendiam para o país com vantagens competitivas significativas. Era uma justificativa legítima e defensável do ponto de vista econômico.
Pouco tempo depois, a narrativa mudou. A mesma cobrança passou a ser vista como um peso excessivo para o consumidor. O governo recuou, anunciou a retirada do imposto e transmitiu à população a sensação de alívio. Milhões de brasileiros voltaram a acreditar que poderiam comprar produtos mais baratos no exterior sem o impacto daquela tributação adicional.
Mas a grande questão nunca foi o imposto em si. O problema está na forma como essas decisões são comunicadas e percebidas pela sociedade. Quando um tributo é criado, removido ou substituído em intervalos curtos de tempo, o que fica para o cidadão é a sensação de improviso. A impressão é que as regras mudam constantemente, sem estabilidade, sem horizonte e sem compromisso de longo prazo.
A insegurança aumenta quando se percebe que aquilo que foi apresentado como solução definitiva pode, na prática, ser apenas uma pausa temporária. O consumidor não acompanha os detalhes técnicos das mudanças tributárias. Não acompanha as discussões sobre CBS, IVA, reforma tributária ou mecanismos de compensação fiscal. O que ele entende é algo muito mais simples: ontem pagava, hoje não paga, amanhã talvez pague novamente.
A coincidência entre a revogação da taxa e o ambiente eleitoral também merece reflexão. Em política, o tempo das decisões raramente é irrelevante. Reduzir ou eliminar um imposto que afeta milhões de consumidores gera impacto imediato na percepção popular e produz dividendos políticos evidentes. O problema surge quando essa desoneração é apresentada como solução definitiva, enquanto o próprio sistema já aponta para uma nova tributação em 2027.
Na prática, o consumidor pode estar diante de uma ilusão temporária: deixa de pagar hoje para voltar a pagar amanhã. A diferença é que o benefício é sentido imediatamente, enquanto a futura cobrança fica escondida nos detalhes técnicos da reforma tributária. Essa lógica alimenta a desconfiança da população e reforça a sensação de que muitas vezes as decisões são tomadas pensando no próximo ciclo eleitoral, e não na estabilidade econômica do país.
[*] é jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva pela Uninter, com experiência de 23 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa




