
Por Murilo Gomes [*]
O Canal de Xingó, uma das maiores promessas de infraestrutura do Nordeste brasileiro, é um projeto que, ao longo das décadas, tem sido uma bandeira política, alimentando as esperanças de milhares de sertanejos, especialmente da Bahia e de Sergipe. Idealizado pelo ex-ministro e ex-governador João Alves Filho, o projeto visava a irrigação de vastas áreas semiáridas, promovendo o desenvolvimento da agricultura e, consequentemente, a geração de empregos e o aumento da renda das populações locais. No entanto, o que parecia ser uma solução para um problema histórico de seca e pobreza no sertão nordestino nunca se concretizou, e o canal continua sendo uma promessa distante, alimentada por discursos eleitorais e projetos que não saem do papel.
A ideia do Canal de Xingó surgiu nos anos 1980, quando João Alves Filho, então governador de Sergipe, apresentou o projeto como uma alternativa para o aproveitamento das águas do Rio São Francisco. O objetivo era, inicialmente, desviar uma parte das águas do rio para irrigar os campos secos do Sertão, melhorando a produção agrícola e, por conseguinte, as condições de vida das populações. Em 1984, a primeira versão do projeto foi apresentada ao governo federal, com o nome oficial de “Canal de Xingó”.
O projeto ganhou força durante o governo de João Alves Filho, que, na época, encontrou apoio político e financiamentos para dar início aos primeiros estudos e projetos executivos. Contudo, em 1987, o então ministro da Integração Nacional, também João Alves Filho, afirmava que a obra seria iniciada em breve, mas não passava de promessas.
Longa Espera – Ao longo dos anos, o Canal de Xingó foi incluído em diversos planos de governo, mas nunca teve sua construção iniciada de fato. Na década de 1990, o governo de Fernando Henrique Cardoso manifestou interesse em dar sequência ao projeto, porém, questões orçamentárias e disputas políticas regionais sempre dificultaram a viabilidade da obra. Mesmo com promessas recorrentes, o projeto do canal esbarrou em problemas como a falta de consenso entre os estados envolvidos e a fragilidade das propostas para a execução.
Durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Canal de Xingó foi novamente levantado como um projeto prioritário para o desenvolvimento da região. Em 2004, a promessa de investimentos federais foi renovada, mas, mais uma vez, a obra não saiu do papel. Diversos fatores, como mudanças nos quadros políticos e a complexidade do projeto, mantiveram o canal como um eterno “projeto do futuro”.
A década seguinte, com a chegada de novos governantes no Brasil e na região Nordeste, foi marcada por novas tentativas de viabilização. O governo de Dilma Rousseff, por exemplo, em 2010, anunciou que iria revisar o projeto e encontrar formas mais eficientes de sua implementação. Porém, como de costume, essas iniciativas nunca avançaram significativamente.
Após tantas promessas e tantos anos de espera, a população sertaneja, acostumada com o discurso político de soluções para a seca, se tornou cética em relação ao Canal de Xingó. As inúmeras tentativas frustradas de iniciar a obra acabaram gerando uma desconfiança generalizada. Para os sertanejos, o canal deixou de ser uma esperança e passou a ser um símbolo da ineficiência do Estado, incapaz de cumprir suas promessas.
Essa desconfiança é alimentada pela frequência com que o projeto do canal retorna aos discursos políticos, especialmente durante períodos eleitorais. Governadores, senadores e deputados da Bahia e de Sergipe costumam mencionar o projeto em suas campanhas, mas, logo após as eleições, o canal desaparece das agendas de governo. Isso reforça a ideia de que o Canal de Xingó é mais um artifício eleitoreiro do que uma real prioridade de desenvolvimento regional.
Em 2014, o ex-governador de Sergipe, Jackson Barreto, chegou a anunciar que a obra seria readequada e que a infraestrutura necessária seria construída em etapas. Porém, a promessa também se perdeu no tempo, como as anteriores.
Readequação e Novas Promessas – Nos últimos anos, o tema do Canal de Xingó voltou à tona com a promessa de readequação do projeto. Em 2021, o governo federal, através do Ministério do Desenvolvimento Regional, anunciou que seria iniciado um novo estudo para avaliar a viabilidade da obra, levando em consideração os impactos ambientais e econômicos. A proposta agora seria uma versão mais enxuta e tecnicamente viável, com o objetivo de atender principalmente as demandas de irrigação da região. Contudo, a desconfiança da população é ainda mais alimentada por esse novo anúncio, visto que a readequação do projeto soa mais como uma estratégia para manter o tema vivo nas discussões políticas do que uma tentativa real de realizar a obra.
Ao longo das décadas, as promessas de que a obra seria realizada passaram por várias gestões políticas, mas os resultados sempre foram os mesmos: discursos, inaugurações de estudos e mais uma vez, o projeto desaparecendo da pauta após as eleições.
Enquanto o Canal de Xingó segue inacabado, a região do sertão nordestino continua a enfrentar a seca e a falta de infraestrutura. As promessas de irrigação e de melhora na produção agrícola são constantemente adiadas, e a população vive à mercê das intempéries da natureza e das decisões políticas que parecem nunca se concretizar. A seca, que aflige principalmente os estados da Bahia e Sergipe, continua a ser um dos maiores desafios enfrentados pelos sertanejos, enquanto o canal, que poderia representar uma solução, permanece apenas como uma utopia distante.
A falta de investimento em infraestrutura e a ineficiência do poder público em cumprir as promessas feitas durante campanhas eleitorais geram um ciclo de desilusão entre os moradores da região. A cada novo anúncio de readequação do projeto, a população tende a esperar menos e a confiar cada vez menos em mais um projeto que pode não passar de papel.
O futuro do Canal de Xingó ainda é incerto. Mesmo com as novas promessas de readequação e a elaboração de estudos técnicos, a história do canal é marcada pela incerteza e pelo descaso das autoridades. Para os sertanejos, o canal não é apenas um projeto de irrigação, mas uma representação da luta contra a seca, da esperança de uma vida melhor. No entanto, esse sonho, que já dura mais de 40 anos, ainda parece estar distante da realidade.
A falta de ação concreta e a recorrência de promessas não cumpridas sugerem que, talvez, o Canal de Xingó jamais seja mais do que um sonho alimentado pela classe política para ganhar votos. Para os sertanejos, o canal pode nunca ser construído, e o ciclo de promessas e desilusões continuará a ser a única realidade a se viver.
No fim, o Canal de Xingó pode ser visto como um símbolo das muitas promessas políticas que nunca se concretizam, e um retrato da dificuldade de levar adiante projetos estruturantes que verdadeiramente atendam às necessidades do povo nordestino.
[*] Jornalista e empreendedor