Opinião – Do navio à bomba: o aumento recente dos combustíveis não se justifica

Artigo escrito pelo economista Márcio Rocha

Por Márcio Rocha [*]

O consumidor costuma olhar para o preço do combustível na bomba e imaginar que o responsável direto pelo aumento é o dono do posto. Essa percepção, embora comum, está longe da realidade. O posto é o último elo da cadeia, com margens estreitas e pouca capacidade de influenciar o preço final. A formação do valor dos combustíveis ocorre antes, concentrada principalmente na refinaria e no sistema de distribuição, dois pontos da cadeia que operam com muito mais poder de mercado. Para entender por que os reajustes recentes não se sustentam tecnicamente, é necessário olhar para o ciclo real do petróleo até chegar ao tanque do carro.

Vamos falar especificamente sobre Sergipe, ok? O petróleo que abastece a refinaria, refinaria de Mataripe, na Bahia, muitas vezes vem do Oriente Médio. A viagem marítima desde produtores do Golfo Pérsico leva aproximadamente três semanas, entre 18 e 22 dias. Isso significa que o petróleo que está sendo refinado hoje foi comprado e embarcado semanas atrás, com preços do mercado internacional daquela época.

Cerca de vinte dias atrás, o barril do petróleo Brent estava na casa dos US$ 70 a US$ 72, antes da escalada mais recente das tensões geopolíticas. Esse detalhe é fundamental: o custo da matéria-prima atualmente em processamento reflete aquele preço passado, não os valores mais altos registrados após o início das tensões envolvendo o Irã e todos os países da região que sofrem efeitos colaterais do fechamento do Estreito de Ormuz.

Depois de chegar ao terminal marítimo, o petróleo ainda passa por um processo relativamente rápido. A descarga do navio leva cerca de um dia, e o refino completo, da destilação ao tratamento final dos derivados, ocorre entre dois e quatro dias. Ou seja, em menos de uma semana após a chegada do navio, o petróleo já se transformou em gasolina, diesel e outros combustíveis, menos o etanol, é claro.

Mas o ciclo não termina na refinaria. Os combustíveis seguem para bases de distribuição, onde são armazenados e posteriormente vendidos às distribuidoras, que então abastecem os postos. Essa etapa também envolve estoques operacionais que podem cobrir dias ou semanas de consumo, justamente para evitar rupturas logísticas. Somando transporte marítimo, refino e distribuição, o combustível que chega hoje à bomba reflete custos de petróleo adquiridos há cerca de três a quatro semanas. É justamente aí que surge a inconsistência dos aumentos recentes.

Se o petróleo que está sendo refinado hoje foi comprado antes da escalada do mercado internacional, reajustar imediatamente os preços com base em tensões ocorridas na última semana não corresponde à realidade econômica da cadeia de abastecimento. Tecnicamente, os aumentos só fariam sentido a partir da próxima semana ou das semanas seguintes, quando cargas adquiridas com preços mais altos começassem efetivamente a entrar no sistema de refino.

Outro ponto frequentemente ignorado é o papel das distribuidoras. O Brasil mantém um modelo de comercialização absurdo em que os postos são obrigados a adquirir combustível de distribuidoras específicas, criando um sistema altamente concentrado. Na prática, esse arranjo funciona como um oligopólio logístico, onde empresas intermediam a venda entre refinarias e postos, capturando margens relevantes sem necessariamente agregar valor proporcional ao processo. Assim, o posto, que está na ponta da cadeia, acaba sendo o rosto visível de uma decisão de preço que foi tomada muito antes, em níveis muito mais altos da estrutura de mercado.

Portanto, é preciso colocar cada elo em seu devido lugar. O posto não define o preço do combustível; ele apenas repassa um custo que já chegou elevado. A discussão sobre aumentos deve se concentrar onde realmente está o poder de formação de preços: na refinaria que define o valor inicial do produto e no sistema de distribuição que intermedeia sua comercialização.

Quando o preço sobe antes mesmo de o novo custo do petróleo entrar no ciclo produtivo, a pergunta que fica não é sobre o posto, mas sobre quem está antecipando ganhos sobre um produto que ainda foi comprado mais barato. E essa é uma discussão que precisa ser feita com transparência, porque no final da cadeia sempre está o mesmo pagador: nós.

[*] é jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva pela Uninter, com experiência de 23 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa

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