Nas articulações da PEC da Blindagem e da Anistia na Câmara dos Deputados, o Centrão ganhou, o bolsonarismo perdeu — e a sociedade perdeu mais ainda

O Centrão mostrou que atuar nas decisões do Congresso não é para amadores

Por Uilliam Pinheiro

Atuar nas decisões do Congresso não é para amadores. O episódio recente envolvendo a chamada “PEC da Blindagem” e a posterior discussão sobre o PL da Anistia deixou isso escancarado mais uma vez. O Centrão, fiel ao seu histórico de agir em causa própria, montou uma armadilha quase didática para os bolsonaristas. Ofereceu um discurso que gera likes e engajamento nas redes — o de combater a suposta perseguição seletiva do STF — além da promessa de pautar a urgência do PL da Anistia e, em troca, recebeu apoio à PEC da Blindagem que, na prática, amplia brechas para a impunidade.

A PEC da Blindagem é um mecanismo para que deputados e senadores só sejam investigados ou presos com a autorização do próprio Parlamento. Em outras palavras, cada parlamentar dependeria do aval dos seus colegas para ser responsabilizado, o que, na prática, equivale a um salvo-conduto para manter ou ampliar esquemas sem a preocupação de investigações externas. Seria uma blindagem corporativista que enfraquece o sistema de freios e contrapesos e coloca o Legislativo acima da lei.

Os bolsonaristas abraçaram a proposta e votaram em peso a favor, porque enxergaram nela uma oportunidade de avançar sobre outro tema que os move com fervor: o PL da Anistia ampla e irrestrita para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro e, claro, a inclusão do ex-presidente Bolsonaro na lista de anistiados. O Centrão cumpriu em parte sua promessa e a aprovação da urgência do PL da Anistia aconteceu. Os bolsonaristas chegaram a comemorar como uma vitória política, vista por eles como um passo decisivo para garantir a anistia.

Contudo, logo o Centrão jogou um balde de água fria na festa bolsonarista. O relator escolhido pelo presidente Hugo Mota foi Paulinho da Força Sindical, que deixou claro que não haverá perdão coletivo, mas apenas uma possível redução de penas — a chamada “dosimetria”. A grande vitória esperada pelos bolsonaristas revelou-se, na verdade, uma concessão tímida e muito distante do que almejavam.

Nesse processo, não houve ingenuidade. Os bolsonaristas sabiam o que significava a PEC da Blindagem. Mas, como sua prioridade nunca foi o país e sim a figura de Jair Bolsonaro, optaram por justificar o injustificável com a narrativa de que apenas a direita é perseguida pelo STF e votaram em peso na PEC da Blindagem.

O resultado foi previsível: o Centrão conseguiu consolidar mais um mecanismo de autopreservação, e os bolsonaristas ficaram com o desgaste. Agora, muitos tentam alegar que foram enganados, quando, na verdade, fizeram uma aposta consciente, ainda que míope, em nome da lealdade ao “capitão”.

Enquanto isso, o Centrão continua sendo um bloco que se move em defesa própria, votando em tudo que garanta proteção e espaço de barganha. Nesse tabuleiro, o bolsonarismo expôs sua maior fraqueza ao reduzir sua pauta a um único nome de forma desesperada, perdendo totalmente a capacidade de agir estrategicamente. Quem joga apenas para defender um líder personalista acaba servindo de massa de manobra para quem sabe jogar o jogo.

E, mais uma vez, foi o Centrão quem seguiu dando as cartas do jogo. O pior de tudo isso é que quem mais perdeu foi a sociedade.

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