
Por Fausto Leite [*]
Em tempos de hipervisibilidade, em que as redes sociais amplificam cada gesto, cada fala, cada deslize, a postura do advogado Josefhe após a audiência de custódia de um réu acusado de assassinar uma criança não foi apenas infeliz, foi profundamente ofensiva, institucionalmente vergonhosa e socialmente repugnante.
Ao se portar com deboche, ironia e ostentação, o advogado cruzou um limite que não pode ser relativizado: o da ética profissional. Seu comportamento não atingiu apenas a sua imagem pessoal, mas feriu diretamente a dignidade da advocacia como instituição. Ele não falou como um cidadão qualquer; falou como advogado, em pleno exercício da profissão, logo após um ato solene do Judiciário. E o fez em público. De forma intencional. Irresponsável. E irreversível.
É acertada e necessária a decisão da OAB de instaurar um procedimento disciplinar para apurar eventual infração ética. A advocacia exige, por dever, sobriedade, zelo, e responsabilidade. Quem se expressa em nome da profissão deve compreender que cada palavra carrega consigo o peso de representar uma classe inteira. E que esse peso não pode ser transformado em palanque para vaidades pessoais ou em palco para arrogância diante da tragédia humana.
O caso é simbólico. Escancara o quanto a banalização das redes sociais pode corroer os fundamentos de instituições que deveriam ser sustentadas por valores sólidos, como o compromisso com a justiça, o respeito à dor alheia e a dignidade da vítima. Quando um advogado, diante da morte de uma criança, responde com vídeos festivos e frases provocativas, a mensagem enviada à sociedade é clara: há quem tenha esquecido por completo o real sentido da toga que veste.
Não se trata aqui de censura à liberdade de expressão. Mas sim de reafirmar que a liberdade profissional, como qualquer outra, vem acompanhada de deveres. E entre eles está o mais essencial de todos: o dever de respeitar os limites da ética, da humanidade e da dor coletiva.
É preciso que os jovens advogados compreendam que a profissão não se constrói com curtidas, nem com vídeos de autocelebração. Constrói-se com estudo, entrega, humildade e responsabilidade. A imagem da advocacia é construída todos os dias, por ações e por omissões, e precisa ser protegida da espetacularização rasa, da futilidade digital e da falta de empatia.
O caso Josephe não é um erro isolado. É o retrato de um risco crescente: o da substituição da substância pelo espetáculo. O da advocacia que esquece sua missão social para se curvar ao algoritmo.
Que este episódio sirva como reflexão profunda e como alerta. Porque a palavra tem poder. E quando mal usada, ela pode não apenas ofender, pode desonrar uma profissão inteira.
Texto publicado originalmente no Fausto Leite Notícias – O caso Josephe e a ética ferida da advocacia – faustoleite.com.br





