Por Murilo Gomes [*]
Poucos tinham dúvidas de que dois episódios recentes — o escândalo envolvendo o INSS e o caso do Banco Master — iriam sacudir a Praça dos Três Poderes muito mais do que o trio elétrico de Bell Marques em pleno Carnaval ou do que o furacão geopolítico provocado por Donald Trump no cenário internacional.
Quem não pegou a pipoca e se acomodou na poltrona perdeu um verdadeiro espetáculo político-judicial.
De um lado da praça, o caso do INSS começou a bater às portas do Palácio do Planalto. Entre suspeitas, investigações e bastidores, surgiram citações ao filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido popularmente como Lulinha, ainda que por ora, tudo esteja no terreno das suspeitas e dos comentários de bastidores, a trama promete fortes emoções.
Do outro lado da praça, porém, a história ganhou contornos dignos de cinema. O enredo envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro parece ter saído diretamente de um roteiro de “The GodFather”. Segundo relatos e investigações divulgadas na imprensa, houve reuniões discretas, encontros reservados e visitas pela proverbial “porta dos fundos”, com direito à presença de ministros e até do presidente do Banco Central do Brasil.
Mas o verdadeiro terremoto político ocorreu no lado mais austero da praça: o Supremo Tribunal Federal. Ali, o clima esquentou de vez. Investigações começaram a respingar em círculos próximos de ministros, surgiram relatos envolvendo parentes próximos como esposa, irmão, primo, cunhado todos mencionados em meio a suspeitas e rumores que deixaram muita gente de toga arrepiada. Como registraram algumas manchetes que circularam pelo país: “Mensagens de celular ampliam investigação e citam bastidores do poder”, “Empresas de fachada e contratos suspeitos entram na mira da investigação”, “CPI no Congresso promete aprofundar apuração sobre relações entre empresários e autoridades”.
O conteúdo do celular de Vorcaro, segundo relatos divulgados pela imprensa, trouxe até um certo toque de picardia à trama. Em meio a conversas sobre negócios, surgiram diálogos sobre temas bem menos institucionais incluindo sexo e brincadeiras privadas criando um contraste quase surreal com a sobriedade das togas e dos gabinetes de Brasília. Sobrou até um xingamemto ao Bolsonaro, lá quietinho no cantinho dele.
Enquanto isso, no Congresso Nacional, alguns parlamentares decidiram partir para o ataque e pressionaram pela abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Poucos, mas barulhentos, apresentaram-se como intrépidos cavaleiros da transparência. A CPI acabou saindo do papel.
Claro que a reação veio rápida: críticas de setores do Judiciário, ressalvas de parte da imprensa e a costumeira guerra de narrativas nas redes sociais, onde a chamada “pistolagem digital” nunca perde uma oportunidade de entrar no ringue.
Entre tantas perguntas que circulam nos corredores de Brasília, uma virou quase lenda urbana: por que, ao ser preso, o chamado “Al Capone de Brasília” não ligou para sua advogada que, segundo relatos, recebia honorários generosos e preferiu contatar diretamente um ministro do Supremo? E ele tinha 129 milhões de motivos para ligar para ela.
Curiosamente, dizem os bastidores, com a advogada ele falava pouco. Já com o magistrado, as mensagens eram mais frequentes, muitas vezes cifradas e discretas. Em certos casos, dizem, dignas de romance policial, com direito até a métodos quase analógicos de comunicação como se o velho pombo-correio ainda tivesse espaço no século XXI.
Mas calma. Se a política brasileira já parece um roteiro de cinema, convém lembrar: esse filme ainda está longe dos créditos finais. Em Brasília, todo mundo sabe que, quando a treta começa suprema, o roteiro sempre guarda novos capítulos. E, quase sempre, as próximas cenas são ainda mais surpreendentes. Não percam.
[*] Jornalista e empreendedor





