Silenciar também é verbo

Deputado arrancado da cadeira na marra, palavra trocada pra esconder anistia. Na Câmara, o poder mandou calar na base da força

Por Marcolino Joe

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos”. Rubem Alves escreveu isso.

Ele acreditava que a palavra não é decoração da realidade. É lente. Quando você escolhe uma palavra, você escolhe também o que o mundo vai parecer. Você escolhe o que merece ser visto e o que será varrido para debaixo do tapete da história.

Por isso não é detalhe quando a Câmara tenta empurrar “dosimetria” no lugar de “anistia”. Dosimetria parece ciência, parece justiça matemática, parece que as consequências estão chegando com régua e compasso. “Anistia”, por outro lado, tem gosto amargo na boca do povo desde os atos golpistas.

Anistia é uma palavra que carrega sentido demais, memória demais, vergonha demais. Então trocam a palavra… e fingem que trocaram a realidade.

A violência é banal. E isso revela algo terrível sobre o estado da linguagem política no Brasil. O símbolo da legitimidade já não serve. Quem senta na cadeira do poder não é quem pode falar. É quem pode apanhar ou não. O discurso, o regimento, a promessa: tudo soa ruído branco. O signo mais forte agora é o cassetete. O corpo se tornou o texto final. As palavras se tornam invisíveis, redundantes, descartáveis. Porque o real é imposto no corpo.

A estética do poder mudou. Não é mais o convencimento que decide, e sim o aparato. A fotografia vale mais que o parágrafo. A imagem virou arma. A mensagem é simples: não fale, não incomode, não se atreva a ocupar o espaço que não foi desenhado para você.

E aí volta o velho Rubem para cutucar: a palavra é resistência. Quando tiram alguém da cadeira à força, quem ainda dá nome à violência é a língua. Quem impede que a foto seja esquecida é o verbo. Quem insiste que aquilo não deveria ser normal é a frase escrita no lugar certo, na hora certa.

Democracia é frágil. Não morre só com tanques ou quebra-quebra. Às vezes ela vai enfraquecendo por dentro, sorrindo educadamente, mudando uma palavra aqui, outra ali.

Anistia. Um termo que parece democrático, pacificador, maduro… até que a gente percebe que pode ser o alvará para destruir tudo com calma, sem alarde, com vocabulário constitucional impecável.

É assim que acabam as repúblicas: primeiro se troca a palavra. Depois se troca o sentido. Por fim, troca-se o futuro inteiro sem ninguém notar.

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