
Por Adir Machado [*]
Vivemos uma era em que a política se mede mais pelo número de curtidas do que pela profundidade do debate. É um tempo em que as redes sociais moldam narrativas, criam personagens e, muitas vezes, substituem a análise séria por frases de efeito e discursos prontos para viralizar. Quando essa lógica passa a pautar a atuação de líderes preparados, a sociedade inteira perde.
Recentemente, publiquei um artigo avaliando justamente o impacto das redes sociais no comportamento dos políticos — inclusive dos mais sérios — e as consequências negativas desse fenômeno para a democracia. Essa transformação digital, longe de ser neutra, tem alterado a forma como as decisões são tomadas e como os debates públicos são conduzidos.
O recente posicionamento do deputado Georgeo Passos ilustra bem esse cenário. O parlamentar, aliado da prefeita Emília Corrêa e opositor do governador Fábio Mitidieri, criticou o governo estadual por divulgar que mais de 70% da população avalia a gestão como ótima, boa ou regular. Para Georgeo, o correto seria somar regular, ruim e péssimo para concluir que o governo foi “reprovado”. Até aí, divergências metodológicas são legítimas. O problema está na incoerência: se esse mesmo critério fosse aplicado de forma uniforme, a conclusão sobre a gestão municipal seria muito parecida — mas sobre isso o deputado silencia.
Os números das pesquisas mais recentes deixam isso evidente. No caso de Fábio Mitidieri, 13,11% avaliam a gestão como ótima, 26,05% como boa, 35,15% como regular, 10,38% como ruim e 9,84% como péssima, totalizando 74,31% entre ótima, boa e regular (número divulgado pelo Governador e refutado pelo Deputado) e 55,37% entre regular, ruim e péssimo (critério utilizado pelo Deputado para justificar que o Governo está reprovado). A mesma pesquisa, relida mas não questionada pelo respeitado Parlamentar, também revela dados da gestão de Emília Corrêa, onde 16,21% consideram a administração ótima (empate técnico com o Governo), 28,60% boa, 33,15% regular, 10,56% ruim e 10,38% péssima, chegando a 77,96% entre ótima, boa e regular (número bem próximo ao alcançado pelo Governo) e 54,09% entre regular, ruim e péssimo (se o critério do Deputado for considerado a gestão da capital também estaria reprovada).
Os percentuais são muito próximos — tanto nos índices positivos quanto na soma dos que não avaliam as gestões como ótimas ou boas. Ainda assim, o deputado opta por criticar duramente os números do governo estadual e não aplica o mesmo raciocínio à gestão municipal. Isso não é debate técnico — é narrativa seletiva.
Essa postura se torna ainda mais difícil de compreender diante de outro dado concreto motivo de postagens recentes do mesmo Parlamentar: durante décadas, Sergipe conviveu com a falta crônica de leitos de UTI pediátrica. Não faz muito tempo, o próprio deputado Georgeo Passos estava entre os que denunciavam essa realidade e cobravam soluções. Pois bem: em pouco mais de um ano, o governo Fábio Mitidieri ampliou em 300% o número de leitos de UTI pediátrica, uma conquista histórica para a saúde do Estado.
Seria natural reconhecer o avanço e cobrar novas melhorias. Mas, ao menor sinal de pressão sazonal — como ocorre todos os anos com o aumento das síndromes respiratórias —, o discurso volta a ser o de “falta de UTI” e “má gestão”, ignorando deliberadamente os números concretos.
Essa contradição não fortalece o debate democrático. Ao contrário, fragiliza-o, pois confunde a opinião pública e transfere a discussão para o terreno da lacração nas redes sociais, onde o engajamento vale mais do que a verdade. O problema é que, quando lideranças sérias e preparadas cedem a essa lógica, a consequência é grave: a sociedade perde a oportunidade de discutir soluções de forma franca e madura.
E é aqui que surge a pergunta central: como “governar bem” se, para parte da oposição, nenhum resultado será suficiente? Se ampliar os leitos de UTI pediátrica em 300% não basta, o que bastaria?
Governar exige coragem para enfrentar problemas históricos, disciplina para implementar soluções e humildade para reconhecer que os desafios são permanentes. É isso que a atual gestão estadual tem buscado fazer. A crítica séria e fundamentada deve sempre ser bem-vinda, mas o que se vê, cada vez mais, é um uso seletivo de dados para desenhar narrativas que pouco dialogam com a realidade.
A política das versões pode até render curtidas, mas jamais salvará vidas ou resolverá os problemas mais urgentes.
[*] Advogado





