Opinião – O Brasil e a caça aos seus pardais econômicos

Artigo escrito pelo economista Márcio Rocha

Por Mário Rocha [*]
Articulista que escreve aos sábados

Em 1958, a China viveu um dos episódios mais desastrosos da história econômica moderna. Sob o comando de Mao Zedong, o governo iniciou uma campanha nacional para exterminar os pardais, acusados de consumir os grãos que deveriam alimentar a população. A lógica parecia simples e até sedutora: menos pardais significaria mais comida disponível para o povo chinês. O problema é que os pássaros exerciam uma função invisível dentro do ecossistema. Eles controlavam pragas agrícolas, especialmente gafanhotos. Quando desapareceram, os insetos se multiplicaram sem controle, devastaram plantações inteiras e aprofundaram a fome que marcaria a Grande Fome Chinesa, uma das maiores tragédias humanas do século XX.

O erro da China foi destruir um elemento essencial da engrenagem econômica sem compreender sua importância sistêmica. Décadas depois, o Brasil parece caminhar perigosamente por uma lógica semelhante. Só que, aqui, os pardais são as empresas.

O ambiente econômico brasileiro tornou-se progressivamente hostil à atividade produtiva. Empresários convivem diariamente com insegurança jurídica, mudanças constantes de regras, excesso de burocracia, judicialização crescente, dificuldade de crédito, custos operacionais elevados e uma carga tributária que se expande continuamente para compensar a incapacidade estrutural do Estado de equilibrar suas contas. A cada crise fiscal, surge um novo tributo, uma nova obrigação acessória ou uma nova interpretação regulatória capaz de aumentar custos e ampliar incertezas.

Criou-se no Brasil a perigosa ilusão de que empresas possuem capacidade infinita de absorver impactos. Como se fosse possível elevar indefinidamente impostos, encargos, custos trabalhistas, exigências burocráticas e riscos jurídicos sem produzir consequências econômicas. Mas empresas não são abstrações ideológicas. São organismos vivos da economia. São elas que empregam, investem, financiam cadeias produtivas, movimentam comércio e serviços, sustentam municípios e garantem boa parte da arrecadação pública.

Quando esse ambiente se torna excessivamente agressivo, o efeito inevitavelmente aparece. O empresário reduz investimentos, adia expansões, retrai contratações, automatiza operações defensivamente ou simplesmente encerra atividades. O capital procura ambientes mais previsíveis e menos hostis. A economia perde dinamismo. O emprego enfraquece. O consumo desacelera. E o próprio Estado começa a arrecadar menos justamente porque sufocou parte da base econômica que sustentava sua arrecadação.

Exatamente como a China descobriu tarde demais que os pardais protegiam suas lavouras.

O mais perverso desse processo é que a conta sempre chega ao consumidor. Não existe aumento estrutural de custos sem reflexo nos preços. O consumidor brasileiro não paga apenas pelo produto que leva para casa. Ele paga também pela insegurança jurídica embutida na operação, pela burocracia excessiva, pela litigiosidade tributária, pelo custo do crédito, pela instabilidade regulatória e pela complexidade fiscal que atravessa toda a cadeia produtiva do país.

Cada nova camada de custo criada pelo Estado percorre silenciosamente toda a economia até desembarcar no caixa do supermercado, no combustível, no aluguel, no frete, no plano de saúde, no material escolar e nos serviços do cotidiano. Quando a empresa não consegue mais repassar esses custos, inicia-se outro ciclo ainda mais destrutivo: corte de investimentos, redução de empregos, fechamento de unidades e retração econômica.

É nesse momento que surgem os “gafanhotos” da economia brasileira: desemprego, inflação estrutural, informalidade, queda de renda, perda de competitividade e aumento da dependência estatal. O país passa a conviver com baixo crescimento crônico enquanto amplia continuamente a pressão sobre quem ainda produz riqueza.

O Brasil precisa decidir se continuará tratando o setor produtivo como adversário permanente ou como parceiro indispensável ao desenvolvimento nacional. Nenhuma sociedade prospera hostilizando empresas. Nenhum país construiu estabilidade econômica sufocando quem produz, investe, emprega e gera arrecadação.

Países desenvolvidos compreenderam há muito tempo que arrecadação sustentável depende de um ambiente econômico saudável, previsível e juridicamente seguro. Sem empresas fortes, não existem empregos fortes. Sem empregos fortes, não existe consumo robusto. Sem consumo, não há arrecadação sustentável. E sem arrecadação sustentável, o próprio Estado entra em desequilíbrio permanente.

A grande lição da China continua extremamente atual: toda economia funciona como um ecossistema delicado. Quando governos começam a exterminar seus “pardais econômicos” em nome de soluções simplistas, arrecadatórias ou ideológicas, o resultado inicial pode até render aplausos momentâneos. Mas o desfecho costuma ser sempre o mesmo: menos produção, menos prosperidade e mais sofrimento coletivo.

Foto: Agência Brasil

[*] é jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva pela Uninter, com experiência de 23 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa

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