Por Uilliam Pinheiro
A eleição presidencial de 2026 pode marcar um ponto de inflexão na política brasileira. Não apenas por envolver novamente Luiz Inácio Lula da Silva, que poderá disputar seu quarto mandato com chances reais, mas também porque pode representar o encerramento de um ciclo histórico da esquerda no comando do país. Mais do que o resultado imediato das urnas, está em jogo a sucessão política e a capacidade de renovação de projetos.
Lula segue sendo, de longe, o maior ativo eleitoral do PT. Sua força popular, a memória associada a períodos de crescimento econômico e inclusão social e sua habilidade política ainda o colocam como um candidato altamente competitivo. No entanto, essa centralidade excessiva em uma única liderança revela uma fragilidade profunda, pois o PT e a esquerda, de modo geral, não conseguiram formar sucessores com densidade eleitoral e liderança nacional comparáveis.
Enquanto isso, a direita brasileira parece viver um movimento inverso. Governadores de estados estratégicos como Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul despontam como nomes viáveis, com boa aprovação local, discurso afinado com parte significativa do eleitorado e capacidade de articulação nacional. Ainda que representem correntes diferentes dentro do campo conservador e liberal, esses líderes simbolizam renovação, algo que hoje falta à esquerda institucional.
Parte dessa crise pode ser atribuída às escolhas do próprio PT. Ao longo dos últimos anos, o partido se afastou das bases sociais que o originaram, como sindicatos, movimentos populares e militância orgânica, e adotou uma postura cada vez mais pragmática, aproximando-se do modo de operar de partidos tradicionais, a exemplo do MDB. Essa estratégia garantiu governabilidade e alianças no curto prazo, mas cobrou um preço alto em identidade, formação política e renovação de quadros.
O resultado é uma esquerda que governa, mas já não mobiliza como antes, que administra, mas não encanta, e que depende de Lula sem preparar o período posterior à sua liderança. Se esse cenário se mantiver, 2026 pode ser menos uma eleição de continuidade e mais uma despedida gradual de um projeto político que marcou o Brasil por décadas.
Olhando para 2030, não é improvável imaginar um país governado pela direita por um longo período. Caso a esquerda não faça uma autocrítica profunda, não reconstrua sua atuação de base e não forme novas lideranças com legitimidade social, o pêndulo político tende a se deslocar. A história mostra que ciclos se encerram não apenas por derrotas eleitorais, mas também por esgotamento interno.
O tempo, como sempre, dará a resposta. Mas os sinais estão postos, pois mais do que vencer eleições, projetos políticos precisam se renovar para sobreviver.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil





