Por Fausto Leite
Texto publicado originalmente no site Fausto Leite Notícias
Quando Valdemar Costa Neto afirmou que Jair Bolsonaro “sonha em ver Emília Corrêa candidata ao governo de Sergipe”, a imprensa correu para estampar manchetes, mas esqueceu de combinar com a realidade. Porque, sejamos francos: neste momento, Bolsonaro está menos preocupado com Sergipe e mais ocupado tentando sobreviver politicamente e juridicamente. Seu foco está voltado para os próximos quinze dias que podem definir se será condenado, absolvido, preso, exilado ou transformado em mártir político. Falar que ele estaria perdendo o sono pensando em quem governará o menor estado do Brasil é, no mínimo, forçar o roteiro.
A fala de Valdemar parece muito mais um gesto político do que uma convicção real. Um aceno para tentar inflar o ego da prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, que mal completou nove meses no cargo e ainda está ajustando as engrenagens da máquina municipal. Sim, tem tropeçado e isso é natural para quem assumiu um sistema que vinha há anos funcionando em uma só lógica de poder. Mas tem conseguido manter a prefeitura andando, imprimindo aos poucos o seu estilo.
Projetá-la agora para uma candidatura ao governo do Estado é um salto que não se sustenta nem na estratégia nem no calendário. Para disputar em 2026, Emília teria que abandonar a prefeitura com antecedência, algo que nem sua base aceitaria e que, para o eleitor da capital, soaria como abandono precoce de missão. É por isso que a chance de Emília sair candidata ao governo é praticamente zero.
Além disso, se esse cenário improvável se concretizasse, seria um presente para o atual governador Fábio Mitidieri. Emília tem capilaridade na capital, mas não no interior, onde está o grosso do eleitorado sergipano. Fábio, por sua vez, está consolidado, entregando resultados e superando as expectativas. Na realidade, ele vem dando uma aula de administração pública, do mesmo modo que o ministro Fux deu uma aula de Direito Constitucional: com técnica, serenidade e resultados.
Um eventual duelo entre Emília e Mitidieri seria, para o governador, um passeio. E, de quebra, ainda abriria espaço para que Ricardo Marques, atual vice-prefeito, assumisse o comando da capital. Ricardo carrega uma virtude rara na política: a gratidão. Mesmo tendo declarado voto em Fábio Mitidieri na eleição passada, não hesitaria em apoiar Emília caso herdasse a prefeitura, justamente por reconhecer quem lhe abriu portas e confiou nele para a vice.
A verdade é que, hoje, a única figura capaz de inquietar Mitidieri é Valmir de Francisquinho. Carismático, enraizado no interior e com recall de votos, Valmir é o adversário que ronda o imaginário político de Fábio e é com ele que o governador troca farpas de tempos em tempos. Essa tensão faz parte do jogo, e quem acompanha política sabe que é natural.
No fim das contas, a declaração de Valdemar soa mais como cortina de fumaça do que como análise de cenário. Emília está focada na prefeitura e não dará esse salto agora. Bolsonaro tem preocupações maiores. E Sergipe continua sendo um tabuleiro que exige estratégia, não devaneios.





