Opinião – O incômodo do rico diante de quem ousa subir

Texto escrito por Aryadny Silva, ativista social e defensora dos direitos humanos

Por Aryadny Silva [*]
Articulista que escreve às quartas-feiras

Em um país tão desigual quanto o Brasil, há algo que incomoda mais do que a pobreza em si: o pobre deixando de ser pobre. É curioso observar como parte da elite econômica se mostra desconfortável quando o filho da doméstica entra na universidade, quando o jovem da periferia veste uma beca, ou quando o trabalhador que passava horas no sol conquista um diploma. A educação, que deveria ser o grande igualador social, é tratada por alguns como uma “invasão” de território, como se estudar fosse um privilégio hereditário.

Esse desconforto não é novo. Ele aparece nas pequenas falas, nos olhares e até nas piadas disfarçadas de “brincadeira”. É o “ué, mas fulano vai fazer faculdade?” ou o “pra que estudar tanto se vai acabar virando funcionário público?”. O que se esconde por trás dessas frases é o medo: o medo de perder o controle do que sempre foi um espaço deles — o saber, o status, o poder.

O filme “Mentes Perigosas” (1995), estrelado por Michelle Pfeiffer, retrata bem essa barreira simbólica. A professora Louanne Johnson enfrenta uma sala cheia de jovens marginalizados, desacreditados por um sistema que os considera incapazes de aprender. A sociedade já havia decidido o destino deles antes mesmo de qualquer tentativa. O simples ato de ensinar, de mostrar que eles podiam pensar, sonhar e escolher, se torna um ato de rebeldia. Assim também é na vida real: quando o pobre decide estudar, ele desafia o roteiro que escreveram para ele.

Outro exemplo forte é o filme “Que horas ela volta?” (2015), de Anna Muylaert. Nele, Val — uma empregada doméstica que serve há anos uma família rica, vê sua filha Jéssica chegar a São Paulo para prestar vestibular. O incômodo da patroa não vem da presença da moça em sua casa, mas do fato de ela ousar sonhar em entrar na mesma universidade que o filho dela. O filme é um espelho cruel da nossa realidade: a elite não se incomoda com a pobreza quando ela serve café, mas se incomoda profundamente quando ela pede uma xícara.

A verdade é que estudar é, sim, um ato político. Cada jovem pobre que entra numa universidade pública é uma afronta a séculos de exclusão. É a prova viva de que talento, esforço e inteligência não nascem com sobrenome. Mas, ao mesmo tempo, é um lembrete doloroso para quem sempre acreditou que o saber era um “direito de casta”.

Como estudante, como filha de um homem que trabalha sob o sol para que eu possa estudar à sombra, eu vejo na educação não apenas um caminho individual, mas uma herança coletiva. Cada diploma conquistado por alguém da classe trabalhadora abre uma porta que, até pouco tempo atrás, era trancada a sete chaves.
O rico não se irrita porque o pobre estuda, ele se irrita porque o pobre começa a entender o mundo. E quem entende o mundo começa a questioná-lo. E é aí que mora o verdadeiro perigo.

[*] Ativista social e defensora dos direitos humanos

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