Opinião – Lucas Aribé: quatro décadas rompendo barreiras e iluminando caminhos

Aos 40 anos, Lucas Aribé permanece como símbolo de resistência, inteligência, sensibilidade e esperança

Por Jairton Peterson Rodrigues dos Santos [*]

O capacitismo é uma das formas mais silenciosas e perversas de exclusão social. Trata-se do preconceito e da discriminação direcionados às pessoas com deficiência, sustentados pela falsa ideia de que determinados corpos e existências seriam menos capazes, menos produtivos ou menos dignos de ocupar os espaços da vida pública. Muito antes dessa palavra ganhar centralidade nos debates sociais em Aracaju e no Brasil, um homem já transformava sua própria trajetória em instrumento de resistência, consciência e luta coletiva: Lucas Aribé Alves. Ao longo de décadas, Lucas não apenas denunciou barreiras arquitetônicas e atitudinais, mas também ajudou a construir caminhos concretos de inclusão, acessibilidade e dignidade para milhares de pessoas com deficiência.

Nascido em 21 de maio de 1986, Lucas Aribé Alves chega aos 40 anos como uma das personalidades mais importantes da história recente da luta pelos direitos das pessoas com deficiência em Sergipe. Jornalista, pós-graduado em Comunicação e Novas Tecnologias, técnico em Radialismo, consultor de audiodescrição, educador, músico, cantor e empreendedor social, Lucas construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela coragem de ocupar espaços historicamente negados às pessoas cegas.

Sua história é atravessada pela superação de barreiras impostas por uma sociedade pouco preparada para lidar com a diversidade humana. Ainda criança, aprendeu o sistema Braille e transformou o conhecimento em ferramenta de emancipação. Atuou como professor de informática na Associação dos Deficientes Visuais de Sergipe, a Adevise, contribuindo diretamente para a formação e inserção profissional de inúmeras pessoas cegas. Também trabalhou na área de Educação Especial da rede pública, ensinando informática e Braille a estudantes e professores.

Como comunicador, Lucas rompeu paradigmas. Foi o primeiro comentarista esportivo cego de Sergipe, demonstrando que sensibilidade, inteligência e escuta podem enxergar muito além da visão física. Atuou em rádio, assessorias de comunicação, criou o jornal “Adevise Notícias” em formato acessível e apresentou programas voltados ao debate sobre inclusão e acessibilidade. Sua voz passou a representar, no espaço público, aqueles que historicamente foram silenciados.

Na política, sua presença também foi histórica. Lucas Aribé tornou-se o primeiro vereador cego da história da Câmara Municipal de Aracaju e um dos primeiros do país, exercendo dois mandatos consecutivos entre 2013 e 2020. Sua atuação parlamentar foi marcada pela defesa intransigente da acessibilidade, da inclusão social e dos direitos humanos. Projetos como a Semana Aracaju Acessível ajudaram a ampliar o debate sobre mobilidade, autonomia e cidadania para pessoas com deficiência, mostrando que inclusão não é favor, mas direito.

No campo intelectual, Lucas também deixou contribuições fundamentais. É autor da obra Educação Inclusiva e Deficiência Visual, a primeira publicação sergipana lançada simultaneamente em tinta e em formato digital acessível, reafirmando seu compromisso com a democratização do conhecimento.

Mas talvez o maior legado de Lucas Aribé esteja na dimensão humana de sua existência. Sua trajetória ensinou a Sergipe que deficiência não limita sonhos, talentos ou capacidade de transformação social. Pelo contrário: sua vida mostrou que as maiores barreiras não estão nos corpos, mas nos preconceitos construídos pela sociedade.

Aos 40 anos, Lucas Aribé permanece como símbolo de resistência, inteligência, sensibilidade e esperança. Um homem que fez da própria caminhada uma ponte para que outros também pudessem atravessar o mundo com dignidade.

Porque, no fim das contas, a escuridão dos seus olhos o levou a lutar pelo brilho de muitos.

[*] Professor do Instituto Federal de Sergipe – Campus Aracaju, membro do NEABI – IFS e mestre em Ensino de História – UFS

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