Por Victor Gabriel
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi marcada por uma virada no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Após terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o petista conquistou 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário.
Na minha avaliação, o resultado pode ser explicado por uma combinação de fatores, entre eles a maior mobilização nas ruas e nas redes sociais, o esforço para levar mais eleitores às urnas, as estratégias de comunicação das campanhas e a importância das políticas sociais. Embora não seja possível medir o peso exato de cada elemento, alguns acontecimentos ajudam a compreender a mudança no cenário eleitoral.
Mobilização nas ruas e nas redes sociais
Um dos destaques do segundo turno foi o fortalecimento da campanha de Lula nas ruas e no ambiente digital. A divulgação de vídeos, a circulação de mensagens em grupos e a atuação de apoiadores nas redes sociais ampliaram a presença do candidato na disputa.
A mobilização digital (Ou a falta dela) foi um dos pontos mais falhos pelo atual presidente e seus aliados durante o primeiro turno. Diante da derrota, o Lula utilizou as redes pra fortalecer sua base de apoio e contou com a participação de aliados, em especial, o deputado federal André Janones (Rede-MG). O grupo de WhatsApp conhecido como “Exército de Lula” reuniu milhões de participantes e buscou estimular o compartilhamento de conteúdos favoráveis ao candidato e a circulação de mensagens entre apoiadores.
Essa combinação ajudou a manter a candidatura em evidência durante a reta final e pode ter contribuído para mobilizar apoiadores que precisavam de um incentivo adicional para participar da eleição.
Mais eleitores nas urnas
A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para aproximadamente 19,21% no segundo, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O dado demonstra que mais eleitores compareceram às urnas na votação decisiva. A mobilização para votar, inclusive entre pessoas que não participaram do primeiro turno, pode ter influenciado o resultado.
Controvérsias e erros de comunicação
A campanha de Flávio Bolsonaro também enfrentou episódios que geraram repercussão nas redes sociais. Um deles envolveu um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), com relatos de moradores do Nordeste que criticavam o governo Lula.
A publicação foi contestada por pessoas da região retratada, levantando questionamentos sobre a forma como a realidade local foi apresentada. O episódio ilustra como conteúdos planejados para reforçar uma mensagem política podem produzir reações diferentes das esperadas.
Outro ponto de disputa foram os debates presidenciais. Na minha visão, o desempenho dos candidatos, a clareza das respostas e a maneira de lidar com acusações podem ter influenciado a percepção de parte do eleitorado. Por vezes, parecia que o foco maior era acusar, disparar palavras ou ironias ao invés de apresentar propostas que demonstrassem fortalecer o país e engajar o povo.
A estratégia envolvendo os sigilos bancários
A discussão sobre a abertura dos sigilos bancários dos candidatos também ganhou espaço na reta final. Lula desafiou Flávio a abrir seus dados e levou o assunto para o centro do debate eleitoral.
A iniciativa colocou a transparência financeira entre os temas que exigiam respostas públicas dos concorrentes. Na minha interpretação, a estratégia ajudou a deslocar parte da discussão para um assunto que poderia afetar a imagem dos candidatos.
Políticas sociais e mudança de estratégia
A agenda social também foi importante na campanha. O Bolsa Família, o custo de vida e as medidas voltadas à renda das famílias estiveram entre os temas que mobilizaram o debate eleitoral.
A defesa da continuidade dos programas sociais pode ter contribuído para aproximar Lula de eleitores que consideram esses benefícios importantes no cotidiano.
Além disso, a campanha petista ajustou sua estratégia após o primeiro turno, ampliando a comunicação digital, a mobilização de apoiadores e a apresentação de propostas. Do outro lado, episódios controversos e dificuldades de comunicação podem ter criado obstáculos para a campanha de Flávio Bolsonaro.
O caso Ana Clara
O caso da menina Ana Clara, de cinco anos, morta por um disparo de fuzil em Niterói (RJ), em 2021, também ganhou destaque na reta final da campanha. Durante o último debate, Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre sua atuação como advogado de defesa do policial militar acusado pela morte da criança. Flávio afirmou que desejava esclarecer quem havia feito o disparo e disse acreditar que não havia sido o policial.
O episódio ganhou grande repercussão nas redes sociais, especialmente após a reação da mãe da menina, que acompanhava o debate presencialmente.
Na minha avaliação, o episódio pode ter representado um momento desfavorável para a comunicação de Flávio na reta final, pois colocou o candidato diante de um tema emocionalmente delicado e de difícil resposta em um debate transmitido nacionalmente.



